Review – Gone Home

Velho Também Joga – Review: “Gone Home”

Salve pessoas velhas de todas as idades, estou aqui para terminar a maratona “Velho também joga jogo velho e diferentão”. O jogo, que foi indicado pelos leitores, é “Gone Home”. Mais um que já foi grátis na PSN Plus.
Tentarei fazer um texto tão curto quanto o jogo.

Família Greenbriar

Velho Também Joga – Review: “Gone Home”. Imagem por “The Fullbright Company”

“Gone Home” foi desenvolvido pela “The Fullbright Company” e conta a história de Katie Greenbriar, uma guria de 21 anos que está voltando para a casa dos pais, nos EUA, depois de passar uma temporada de 1 ano na Europa. Katie mora com os pais Terry e Janice, além de sua irmã Samantha. Ao chegar em casa (tarde da noite e durante uma tempestade) ela descobre que a casa está vazia e bem bagunçada. Para deixar tudo ainda mais misterioso, ela encontra uma mensagem da irmã dizendo para que nem tentar entender o que aconteceu. É óbvio que a Katie (nós jogadores, na verdade) vai desrespeitar e fuçar em tudo tentando entender o que rolou. Ah, é importante dizer que o jogo se passa em 1995, então não dá para a Katie simplesmente ligar para os pais ou para a irmã e perguntar onde estão e o que se passou.

Quando o jogo começa o clima é bem de terror, porque a casa está muito bagunçada, como se tivesse sido abandonada às pressas, é tarde da noite e está caindo uma chuva com direitos à relâmpagos e trovoadas. Ajuda o fato de que que colocam o pano de fundo de que a casa foi herança de um tio meio estranho. Outro ponto que vale ressaltar é que eles mudaram para esta casa enquanto a personagem estava na Europa, então ela ainda não conhece a casa (igual ao jogador).

A história vai sendo contada através de itens espalhados pela casa, sejam estes cartas, documentos, etc. Isso quer dizer que você pode terminar o jogo sem ver toda a história, o que é bem arriscado, porque basicamente entender a história é seu único objetivo. E você terá quatro histórias para acompanhar: a história da Samantha, do pai, da mãe e do antigo proprietário da casa.
Particularmente eu gostei de todas as histórias apresentadas, já que me soaram muito realistas e ainda são bem fortes. Sem falar que a maneira como estas histórias são contadas me fizeram sentir a dor/angústia dos personagens. Fiquei completamente envolvido e querendo entender tudo que se passou. O engraçado é que olhando de longe, ou lendo um resumo do jogo, a história parece bem boba. Mesmo jogando, se não tiver disposto a pensar e prestar atenção, ela será só ok. Acontece que cada uma das histórias influencia a outra. É muito complexo e falarei mais abaixo, com spoilers. A nota é 4,5 bengalinhas.

Velho Também Joga – Review: “Gone Home”. História: 4,5 bengalinhas

Agora mais detalhes do que pensei da história, com spoilers. Aperte o botão abaixo se quiser pular este trecho e ir ler sobre a jogabilidade.

Li que grande parte do hate com o jogo é resultado dele contar a história de uma guria que se descobre gay, os pais não aceitarem isso e ela acabar fugindo de casa para viver esse amor. Só que tem muito mais do que isso ali, tem o processo dela descobrindo, entendendo e aceitando este sentimento. Eu não passei por isso e não conseguia ter muita ideia do peso deste processo todo. Acredito que o jogo me ajudou a entender isso um pouco melhor.
Além desta história, tem a história do pai que é um escritor fracassado e, se entendi direito, foi abusado sexualmente pelo tio que deixou a casa de herança para ele.
Tem a história da mãe em um casamento que está cada vez pior e ao que tudo indica começará um caso com um subordinado no trabalho.
Tem a história do tio, que morreu sozinho e isolado pela família. Qual será o motivo de ter sido isolado assim? Será que realmente abusou do sobrinho quando este era criança?
Estas 4 histórias interferem diretamente umas nas outras. Você começa a pensar se o tio relmente abusou do sobrinho. Se perguntar o quanto o abuso que o pai pode ter sofrido não influenciou a sua vida atual? O quanto o casamento dele é ruim porque é consumido pelo segredo deste abuso? Isso respinga no sofrimento da mãe. Percebe que temos uma grande complexidade aqui? É uma pena se tudo isso realmente tiver sido ofuscado por conta de preconceito.


FPX – First Person Experience

Velho Também Joga – Review: “Gone Home”. Imagem por “The Fullbright Company”

O Gameplay é muito simples, lembrando que é um jogo em primeira pessoa, e você basicamente só caminha pela casa e interage com diferentes objetos. Além dos objetos te ajudarem a entender mais sobre a rotina da família, alguns deles ainda te entregam um pedacinho de cada história. Diferente de “Everybody’s gone to the rapture”, encontrar a história pelo cenário não foi um pesadelo sofrível, mas algo prazeroso. E isso não se deve apenas à curta duração, mas à dinâmica que você faz isso, que não se resume apenas a andar, mas requer interação com os objetos e atenção para os detalhes.

A casa possui uma estrutura que foge do comum, já que possui umas passagens secretas e outros segredos escondidos. O legal é como aliaram o level design com a história, porque em cada setor da casa você vai pegando um pedaço da história. Óbvio que no primeiro setor vai entender um pouco sobre o pai, sobre a mãe e sobre a irmã. Depois no próximo setor as histórias deles vão ganhando profundidade e começando aparecer e assim por diante até todas estas histórias atingirem o clímax no último setor.

Ainda que o design da casa de “Gone Home” não chegue aos pés da casa de “What Remains of Edith Finch”, ainda assim é um design interessante que contribui totalmente para o entendimento da história do jogo. Não são só os textos e áudios que contam a história, mas a maneira como objetos banais estão distribuídos na casa. Você consegue entender qual o ambiente cada morador passa o tempo, o que comem, bebem, etc. Tudo me parece que foi cuidadosamente escolhido para cada cenário, exatamente para dar mais realidade para a história contada. Uma pena que o jogo seja tão curto. Eu, que jogo de maneira lenta, tentando fuçar em tudo e vivendo aquele mundo, gastei pouco mais de 90 minutos para zerar o jogo. Isso que deixei escapar somente 1 fragmento da história (que agora já vi no youtube).

Apesar da jogabilidade próxima de inexistente, o level design contribui bastante para a experiência positiva de descobrir a história, por isso lá se vão 2,5 bengalinhas.

Velho Também Joga – Review: “Gone Home”. Jogabilidade: 2,5 bengalinhas

Girlscout

Velho Também Joga – Review: “Gone Home”. Imagem por “The Fullbright Company”

Os efeitos sonoros de “Gone Home”, para mim, são bem comuns. Nada marcante e que mereça destaque. Talvez só o som da chuva? Acho que poderiam ter feito um trabalho mais inspirado.

O trabalho de vozes também é simples, já que a Katie praticamente não fala, mas quando o faz a interprete, Sarah Elmaleh, o faz muito bem. Já Samantha, que narra a maior parte do jogo, é interpretada por Sarah Grayson e ela vai muito bem. Eu conseguia identificar a importância e peso de cada momento da história.

Agora o destaque do jogo é a trilha sonora produzida por Chris Remo, que combina músicas originais, feitas para o jogo, com a inclusão de músicas licenciadas de duas bandas que fizeram parte do movimento punk Riot Grrrrl, direto dos anos 90. As bandas escolhidas foram “Heavens to Betsy” e “Bratmobile”. Além disso eles também incluíram músicas de uma banda mais atual, porém que tem o mesmo estilo das outras duas, a “The Youngins”. Esta banda foi usada para fazer as vezes da banda fictícia que está presente no jogo, chamada de “Girlscout”. A escolha destas bandas e das músicas está totalmente alinhado com a história e até ajuda na tentativa de entender um pouco do que a Sam tem passado.
Para mim, todo o capricho do estúdio com a trilha sonora merece 4,5 bengalinhas. Só não darei nota máxima porque faltou dublagem em português.

Velho Também Joga – Review: “Gone Home”. Som: 4,5 bengalinhas

Menos nem sempre é mais

Velho Também Joga – Review: “Gone Home”. Imagem por “The Fullbright Company”

Fiquei pensando bastante sobre o que escrever com relação aos gráficos do jogo, porém não encontro praticamente nada para destacar. Trata-se de uma casa relativamente comum, com um ou outro segredo e nada mais.
Não é que o jogo seja feio, mas é muito, muito simples. Ainda que o jogo tenha sido feito por apenas 4 pessoas, nos idos de 2013, ele foi trabalhado novamente para o lançamentos nos consoles em 2016, então acredito que dava para ser melhor e eles simplesmente não acharam isso tão relevante.

Como isso praticamente não interfere na experiência, vou deixar na metade da nota: 2,5 bengalinhas.

Velho Também Joga – Review: “Gone Home”. Gráficos: 2,5 bengalinhas

Mais do que um jogo, uma experiência

“Gone Home” foi vítima de alguns pontos que podem ter prejudicado seu desempenho, são eles: uma campanha de hate por conta de uma decisão de roteiro, que o jogador médio de videogame não gostou; uma campanha de divulgação que vendeu um jogo diferente do que ele seria: pessoas que achavam que teriam um jogo de terror e receberam um jogo focado em história. Outro ponto é que muitos jogadores reclamaram do preço (U$ 19,9) por um jogo que era extremamente curto.
Nenhum dos itens acima me abalou, mesmo porque acho que o valor é justo para o capricho com a trilha sonora e com o roteiro da história. Penso que um ingresso para o cinema custaria a metade disso e talvez não te daria a mesma imersão.

Para mim “Gone home” não é um jogo de videogame convencional, mas sim uma experiência. E ainda que a experiência jogando realmente seja curta, ela é intensa. A história do jogo ficou comigo por muito mais do que os 90 minutos que o jogo durou.  Acho até que o formato deste jogo seria o ideal para alguém que não é fã de videogame, mas gosta de histórias e estaria disposto a “ver um filme diferente”, conhecer a mídia. Com paciência esta pessoa iria descobrindo a história e vendo como o videogame consegue envolver os jogadores e trazer mais peso e imersão à história que você consome. Por isso só resta ao velho dar 4,5 bengalinhas e recomendar para todo mundo, principalmente para quem tem dificuldade para entender que videogame pode ser mais do que apenas apertar botões.

Velho Também Joga – Review: “Gone Home”. Nota final: 4,5 bengalinha, jogue sem medo.
*não é uma média aritmética

Compartilhe:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.