Crítica – Cobra Kai (Temporada 3)

Ataque primeiro, mas pode ser um ataque repetido

Como todos sabíamos, Cobra Kai voltou para uma nova temporada. Será que a série atacou com força novamente ou apenas ficou no mais do mesmo? A crítica está quase 100% livre de spoilers, os poucos que aparecem estão no trailer da temporada, mas vamos ser honestos, afinal, quem não imaginava que o Miguel (Xolo Maridueña) voltaria a andar?

Review Cobra Kai
Aqui vamos nós com a terceira temporada de Cobra Kai

Ataque com força, mas nem tanto

Já tenho que começar dizendo que a terceira temporada de Cobra Kai volta com uma carga ainda maior de nostalgia e, para mim, aí começam os problemas da série.
Nas temporadas anteriores a nostalgia era algo que movia a série sem precisar ser forçada ali dentro, tudo parecia natural e fazia sentido. Óbvio que cenas dos filmes da série Karate Kid eram muito usadas, porém pareciam encaixar bem dentro do contexto. Agora, nesta temporada o seriado parece querer se apoiar apenas na nostalgia sem ter noção de como fazer isso trabalhar a favor da história, mas tentam forçar a história a aceitar isso.
A série até começa bem e foge da saída fácil de trazer a Ali Mills (Elisabeth Shue) como a médica que salvaria Miguel, porém toda a viagem do Daniel San (Ralph Macchio) para o interior do Japão, enquanto sua esposa, sua filha e seu filho (que nem sei porque incluíram este personagem, já que ele não serve para absolutamente nada em 3 temporadas) estão sofrendo as consequências da perda de credibilidade de Daniel frente à sociedade de All Valley. Antes de avançar é importante lembrar como acabou a segunda temporada: os adolescentes do dojo de Johnny Lawrence (William Zabka) e Daniel entram numa verdadeira batalha na escola e isso acaba com um garoto em coma.

As consequências desta briga já indicam o primeiro problema de Cobra Kai, pois, já faz ela se descolar das temporadas anteriores: o seriado deixa de ter os pés no chão, tratando bem o mundo de adultos e adolescentes, e passa a ser algo em um mundo muito parecido com o nosso, mas definitivamente não é o mesmo mundo, pois aqui não existem mais leis ou qualquer noção de civilização como conhecemos. Parece exagero, mas não é.
A série alterna coisas do mundo real, como a empresa de Daniel sofrer com a fuga dos clientes que não aceitam toda violência que ocorreu associada ao nome dele, com fantasias absurdas ,como uma nova briga generalizada, que termina com um garoto quebrando o braço de outro e consequência zero. Para não falar de uma briga com depredação de patrimônio, invasão de propriedade, etc.

Toda a evolução que vimos Johnny passar também é jogada fora e ele começa a temporada em um estágio ainda mais atrasado do que o encontramos no início de Cobra Kai. Se isso fosse bem trabalhado ainda faria sentido, mas é apenas uma ferramenta de roteiro para matar tempo da série e não leva para lugar algum, como quase tudo nesta temporada.

E o que falar de Daniel? Só que ele tem a esposa mais compreensiva e boazinha do mundo, aliás a atriz Courtney Henggeler está de parabéns, pois, novamente rouba a cena no papel de Amanda LaRusso. A atriz me passa a impressão de ser a única pessoa se divertindo ali. Sua personagem é uma verdadeira santa da paciência, pois o marido à abandona para tentar uma jogada desesperada no Japão. Esta tentativa não dá em nada e serve apenas para a série abusar da nostalgia ao revistitar a vila do segundo filme de Karate Kid. Nesta vila, além de visitar locais do passado e encontrar Kumiko (Tamlim Tomita), sua namoradinha do passado, ele também encontra um dos piores deus ex-machina que vi nos últimos tempos. O ponto positivo é que foi muito maneiro, e irônico, rever Chozen (Yuji Okumoto) e perceber o quanto ele evoluiu depois dos acontecimentos do segundo filme. A ironia fica por conta de LaRusso seguir como o mesmo menino revolts de Karate Kid 1, 2 e 3.

No núcleo dos adolescentes Miguel segue firme segurando as pontas do elenco e tentando trazer um pouco de razão para toda a maluquice que se passa ali. Uma pena que Samantha (Mary Mouser) tenha virado uma personagem tão perdida e confusa ao ponto da atriz não se encontrar no papel, indo pior que nas duas temporadas anteriores. Infelizmente temos o retorno de Robby (Tanner Buchanan) que, além de sofrer na mão do ator que segue constrangendo, ainda sofre nas mãos dos roteiristas de Cobra Kai. Não tem carência paterna que explique a aproximação dele com Kreese (Martin Kove).
O ponto positivo de destaque aqui, e talvez a única jornada digna até o momento na série, é a mudança de Hawk (Jacob Bertrand) que vai muito bem no papel e contribui muito para a gente acreditar na transformação que acontece. Aliás, o relacionamento de Hawk e Demetri (Gianni DeCenzo) é a melhor coisa desta temporada, junto com a curta passagem de Ali.

Esta breve visita de Ali é um momento de lampejo de como os produtores ainda sabem colocar a nostalgia para trabalhar a favor do roteiro e não o contrário. Espero que se lembrem disso para a quarta temporada.


Tenha piedade e paciência

Na crítica das duas primeiras temporadas eu disse que Cobra Kai era uma dose gigante de nostalgia bem aplicada, já nesta terceira temporada é o contrário, é uma dose gigante de nostalgia sem sentido, tentando apenas fisgar os velhos que querem mais tempo no passado. Esta temporada praticamente acabou com tudo que havia gostado anteriormente, já que ela “desrespeita” os personagens que antes havia tratado com tanto carinho e acerto. Para não falar que tem luta o tempo todo (o tempo todo), ao ponto de irritar e não fazer sentido algum. Até os adultos se metem em altas confusões resolvidas no soco, ou tapa na cara.
Para seguir fazendo um paralelo com a crítica anterior e novamente usar o seriado Malhação como exemplo, enquanto as duas primeiras temporadas me faziam lembrar os primeiros anos da série Malhação, esta me lembra os piores anos, quando as tramas adolescentes bobas deram lugar à tramas bandidas e pesadas ao ponto de perderem conexão com a realidade.
Não sei o quanto a saída do Youtube para a Netflix influenciou na produção desta temporada, mas para a quarta temporada eu realmente espero que os produtores e roteiristas se entendam e reencontrem o caminho das anteriores. Infelizmente não tem como dar mais do que:

2 de 5 bengalinhas. Veja apenas na esperança da quarta temporada ser boa

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