Crítica – “Maus – História Completa”

Sempre quis falar sobre “Maus”, mas sempre achei que me faltava talento. Agora segue faltando talento, porém gerar conteúdo para o blog e talvez influenciar alguém à ler esta pérola dos quadrinhos, ou seria graphic novel?, foi um motivador mais forte.
Só lembrando que não sou especialista em nada, apenas curioso e palpiteiro, como quase todo velho…

Velho Também - Maus

Não pretendo dar spoilers, para não correr o risco de estragar a experiência de ninguém, por isso irei colar a sinopse oficial que encontrei on site do Grupo Companhia das Letras:

“Maus (“rato”, em alemão) é a história de Vladek Spiegelman, judeu polonês que sobreviveu ao campo de concentração de Auschwitz, narrada por ele próprio ao filho Art.”

É legal dizer que originalmente a história foi contada na revista Raw em diferentes períodos/edições indo de 1980 até 1991. Todas estas histórias foram agrupadas em 2 livros, o primeiro foi lançado em 1986, chamado “Maus A Survivor’s Tale: My father bleeds history”, já o segundo volume, chamado “Maus A survivor’s Tale: And Here My Troubles Began” foi lançado em 1991.
No Brasil as edições foram lançadas originalmente em 1986 e 1995, porém eu só fui ler em 2018 quando esbarrei em um podcast falando sobre o quadrinho e foi uma dica certeira, tanto que anos depois sigo pensando no tema e por isso resolvi compartilhar.

Meu pai sangra história

Como o sobrenome do personagem principal na sinopse indica, Vladek é parente, o pai, do autor.
Segundo li, a história do quadrinho surgiu quando Art queria começar um projeto para revista Raw, da qual era editor. A história começou pequena, com poucas páginas, mas o material que ele gravou na entrevista com o pai tinha conteúdo suficiente para ele decidir que iria exorcizar os fantasmas do passado contando a história do pai, um sobrevivente do holocausto. Me impressiona a maneira aberta que ele conta a história. Sem vergonha de retratar o difícil relacionamento que tem com o pai, assim como escreve sobre suas culpas, inseguranças, sentindo que nunca o pai estará satisfeito com nada que ele faça.

O primeiro livro segue a história do pai dos anos 30, vivendo em Czestochova até 1944 quando o pai e, Anja, a mãe de Art, são enviados para o campo de concentração de Auschwitz. Já o segundo vai até o pós guerra.

Na visão do filho, você começa conhecendo ele e o pai que nos dias atuais. Seu pai é apresentado como uma pessoa mesquinha, amargurada e durante a história se mostra até racista. De início isso me chocou bastante, porque não é apenas o pai dele, mas uma pessoa que sobreviveu ao inferno, como retratar desta maneira? Cadê a empatia? Só que, Artie, tem tanta habilidade com a escrita, e tanto cuidado com a história contada, que você passa a conhecer o pai dele e vê como todas as características do pai, sejam positivas ou negativas, fizeram com que ele conseguisse ir sobrevivendo e escapando de cada novo obstáculo que passou durante a segunda guerra.
Me parece que o filho vive em conflito com o pai, mas que também o admira. Não sei, mas me parece que Art sente-se culpado por ter nascido após a guerra e ter tido uma vida “fácil”. Não consegue encontrar nenhuma conexão com pai.
Em algumas passagens do livro é retratada a felicidade do pai ao receber a visita do filho e logo depois já acontece novo conflito entre os dois e a saída é seguirem com a história do pai. Este ponto acaba sendo o que conecta pai e filho, pelo menos enquanto este conta sua história para Art. Acho bem triste, pequeno spoiler, o pai ter morrido e os dois nunca terem realmente se entendido.

Não vou escrever mais para seguir evitando spoilers, porém, a história é muito bem escrita, mesmo com o pouco espaço que os “balões” de um quadrinho permitem.

Aqui meus problemas começaram (na verdade não)

Não tem como falar de Maus sem comentar o detalhe mais inusitado, para mim, que é a escolha de desenhar os personagens como animais. Sim, animais. Os judeus são retratados como ratos, alemães como gatos, poloneses como porcos, estadunidenses como cães e franceses como gatos. Segundo Art, a ideia de usar animais tinha surgido por conta de outro projeto e daí quando começou a escrever Maus ele viu a oportunidade de por em prática isso. A escolha dos ratos para os judeus surgiu inspirada pela própria maneira como o regime nazista se referia aos judeus em alguns materiais de propaganda. Me agrada esta escolha, pois apesar do capricho na arte, ainda estamos falando de um quadrinho preto e branco com uma história complexa, então ser capaz de identificar claramente cada grupo de pessoas é um ótimo recurso para facilitar o entendimento.
Confesso que apesar de ser fã dos quadrinhos de “The Walking Dead“, que também é preto e branco, muitas vezes tenho dificuldade em identificar alguns personagens, principalmente quando são novos na trama. Aqui em “Maus” isso também me acontece, porém sinto que mais importante do que saber sobre cada personagem individualmente, com a óbvia exceção do protagonista, é importante você saber sobre o grupo de personagens. Então a representação dos povos por animais faz com que o artista consiga colocar características específicas para os grupos de personagens. Uma coisa óbvia, para ficar em um exemplo, é a perseguição que os alemães nazistas (gatos) promovem contra os judeus (ratos).
Art também disse que isso o ajudou a criar um distanciamento de que aquela era a história de sua família, o que seria mais difícil se ele tivesse escolhido desenhar pessoas.

Para finalizar sobre a arte, gostaria de destacar o cuidado com os cenários apresentados, pois são bem detalhados e funcionam perfeitamente para te deixar na história.

Só mais uma coisa, para mim Maus” é um quadrinho e não uma graphic novel, pois ele realmente começou bem pequeno dentro da revista Raw, e eu não entendo essa vontade de diferenciá-lo dos demais quadrinhos. Como se classificá-lo de quadrinho o diminuísse, sendo que que até hoje segue como o único quadrinho a vencer o prêmio Pulitzer e talvez tenha sido o maior expoente de que esta mídia permite que histórias profundas sejam contadas.



TL;DR – Fiquei com medo de spoilers ou preguiça de ler mesmo

Sempre que vejo um novo livro, filme, jogo, etc, sobre o holocausto ou segunda guerra eu me pergunto se precisamos de mais uma história sobre isso. Até um tempo atrás eu tinha um pouco de dúvida, porém o que tem acontecido no mundo atual não deixa nenhuma dúvida de que toda história que já vimos ainda não foi suficiente para nos fazer aprender e evitar que isso possa se repetir.
Sei que Maus não é uma história nova, porém só a li em 2018 e desde então indico para todo mundo que se interesse por quadrinhos ou pelo tema contado, pois é uma obra prima.
A arte de Art (trocadilho não intencional), usando animais para representar os diferentes povos envolvidos na história, aliada à sua escrita vão te colocar no centro dos conflitos que ele tem com o pai e também dentro da dura história de sobrevivência de Vladek. Leitura recomendada para todos.

Crítica Maus - Nota
5 de 5 bengalinhas

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