Crítica – The Old Guard

Highlanders, mas sem desvantagem (ou quase sem)

O post é sobre “The OId Guard”, mas se você ainda não viu Highlander pode parar de ler este texto e ir assistir agora mesmo.
Lá vai a sinopse do filme da velha guarda, exatamente como estava no Netflix (computador) no momento que escrevi este post:
Eles são guerreiros milenares que lutam para proteger a humanidade. Mas nem mesmo a imortalidade está livre de ameaças.
Apenas como curiosidade, o aplicativo da Netflix na TV tem uma sinopse diferente:
Quatro guerreiros com o dom da imortalidade protegem a humanidade há séculos. Mas seus misteriosos poderes viram alvo de ataque quando outra imortal entra em cena.
Pode ver que em comum praticamente só o uso estranho de mas antecedido por ponto final.
Gosto mais da versão que está no app da TV, mas a minha versão é esta:
Um grupo de guerreiros imortais se mete em altas confusões enquanto tenta fugir de um empresário muito louco.

The Old Guard

Como já deu para perceber, o foco da trama é este grupo de guerreiros imortais* (guarde esse *, que é a desvantagem destes highlanders) liderados pela misteriosa Andy (Charlize Theron). O grupo possui outros três integrantes: Booker (o excelente Matthias Schoenaerts de “Ferrugem e Osso”), Joe (Marwan Kenzari) e Nicky (Luca Marinelli). Todos eles são guerreiros imortais que já passeiam pela terra por uma quantidade razoável de séculos, ou milênios no caso de Andy. Este esquadrão de elite atua como mercenário em missões militares ao redor do mundo. Tudo isso começa a mudar quando eles aceitam uma missão que foi armada contra eles. O segredo deles é revelado e passam a ser perseguidos por uma gigante farmacêutica interessada em usa-los como cobaia para a fórmula da imortalidade. Ao mesmo tempo surge Nile (Kiki Layne) uma nova imortal.
O filme tem direção da Gina Prince-Bythewood, que eu conhecia por ter dirigido “A vida secreta das abelhas”, que é de um gênero totalmente deste filme.

Tem que acabar o estereótipo do idoso sábio

Aqui começam os spoilers!
Nosso querido Raul “Maurílio” Chequer foi muito feliz com esta frase e este filme só fortalece essa teoria.
Vamos lá, o principal mote do filme são os guerreiros imortais* (olha o *) que estão lutando faz centenas/milhares de anos, tendo passado por todo tipo de guerra e combate que seja possível imaginar. Um resumo bem rápido da história de cada um: a líder Andy tem uns 3 mil anos de idade. Nicky e Joe se conheceram, e descobriram sua imortalidade, na primeira cruzada quase mil anos atrás. Booker é um bebê perto dessa galera, já que apareceu apenas no século 19, durante as guerras napoleônicas. Ainda assim, mesmo Booker sendo cara mais novo do grupo, até aparecer a Nile agora nos anos 2000, deveria ter experiência de sobra tanto em combate de espadas quanto com armas de fogo, já que nas guerras napoleônicas ainda se usavam espadas para quando o combate ia para o corpo a corpo. Se pensar não apenas no uso de armas, mas de estratégia de guerra/combate, o guerreiro mais novo do grupo viu grande parte dos maiores estrategistas de combate que já existiram.
Que grupo de combate foda deve ser esse, não? Não. Nem de longe e isso já fica bem claro no primeiro combate do filme. Uma missão/cilada vergonhosa. Mais vergonhoso que a maneira que eles executam a missão, apenas a cena em que os heróis ressuscitam. Sério, é uma das cenas mais patéticas que eu vi em um filme, e olha que vejo todos os filmes da franquia Resident Evil. Vou até detalhar um pouco mais essa missão/sequência vergonhosa.
O grupo aceita uma missão de resgate e logo quando chegam ao local você já fica empolgado, afinal a sinopse te disse que eles são guerreiros imortais milenares e para completar estão armados com pistola, metralhadora, espada, machado, etc. Lá vem uma aula de invasão e resgate de reféns, certo? Novamente errado. Quando começa a ação o grupo praticamente ataca à moda caralha, afinal são imortais* (olha o * novamente, segura aí). O resultado é que a missão era uma cilada (Bino!) e eles acabam fuzilados e “mortos”. Mas, surpresa, eles ressuscitam e mandam bala no exército inimigo. Por sorte o exército inimigo estava de costas olhando para a parede (!?!?!?!). Veja bem, não é que eles foram assassinados, colocados no saco preto e se levantam pegando todo mundo de surpresa. Nada disso. O roteiro achou que era melhor todos soldados inimigos ficarem de costas trocando ideia, afinal, quem iria imaginar que os caras não morriam? O contratante! Ainda que os soldados não soubessem da imortalidade*, o contratante imaginava isso e ele precisaria dos corpos para estudar. Será que não era o caso de pelo menos já começarem o processo de buscar o saco preto?
Esse primeiro combate já me deixou desconfiado do roteiro do filme da qualidade desse grupo de combate e ao longo do filme a coisa só piora e me fez pensar que os caras na verdade já estavam com preguiça e era mais fácil sair mandando bala e se morrer levanta. Estratégia para que, afinal você é imortal* (chegou a hora!!!). Sabe esse *? Eles na verdade não são imortais! Surpresa! A imortalidade deles acaba sem avisar, ou quando o roteiro precisa, inclusive no filme mostram que o grupo já perdeu um membro que morreu definitivamente.
Não basta eles terem menos habilidade de guerra que a tropa comandada pelo Sargento Pincel, eles ainda não possuem profundidade alguma. O filme tenta ficar em um misto de ação e drama, mas o passado dos personagens não é atraente. Em apenas dois momentos o filme parece encontrar o caminho do drama ao apresentar um pouco da história dos personagens. A primeira é quando Booker se abre e conta o que passou com sua família, porém isso é usado de maneira tão rasa que não convence. A segunda vez é com relação à imortal Quynh (Veronica Ngo), que foi condenada à um castigo tão genial quanto cruel: colocaram dentro de um caixão de ferro e afundaram em algum lugar desconhecido. Desta maneira ela fica em um processo praticamente eterno de ressuscitar e morrer afogada novamente, causando sofrimento e agonia para ela e para sua Andy, seu par romântico. Essa história me fez temer pelos imortais, afinal, morrer pode não ser a única maneira de dete-los? Só que o filme vai pelo caminho mais preguiçoso e covarde possível, para tentar colocar drama e nos deixar preocupados, faz com que a Andy perca a imortalidade. Novamente é algo tão raso que em momento algum você fica com medo que ela morra. Pior que isso só a maneira como Nicky e Joe são sequestrados e transportados em uma van. Patético.

Temos que pegar, isso eu sei. Pegá-los eu tentarei!

O surgimento da nova imortal, Nile, é muito legal. A maneira que todos imortais começam a compartilhar o mesmo sonho até que a nova pessoa seja incorporada ao grupo é uma ideia excelente e bem simples, já explicando como todos ali se acharam. Também é bom que através dos olhos da Nile nós começamos a entender um pouco mais da (pouca) história de cada um dos personagens e do grupo. Uma pena que personagens centenários sejam tão vazios e não tenham praticamente nada interessante para compartilhar, afinal, nem aconteceu nada digno de nota nos últimos 3 mil anos.
O roteiro é tão fraco que mesmo a motivação para a Nile desistir de tudo (família, amigos, etc) é pouco convincente, ainda que a atriz sustente bem o papel.

Looney Tunes go wild

A entrada do empresário Merrick (Harry Melling, o primo trouxa de Harry Potter) é ridícula, já que o personagem é o mais caricato possível, parecendo que colocaram um personagem do Looney Tunes no filme. Fiquei aguardando a hora que ele usaria algum dispositivo da ACME. Quero ver pelo menos mais algum filme com este ator, pois nos dois que vi (“O Diabo de cada dia” e “The Old Guard”) ele faz o mesmo personagem. Será que ele é assim na vida real? Será que é da escola Jesse Eisenberg de “atuação”? Não sei, o que sei é que toda a trama dele é boba. De maneira bem resumida, ele é dono de uma gigante farmacêutica e quer os imortais para usar como ratos de laboratório para desenvolver a fórmula da vida eterna. Como se ele não fosse patético o suficiente, o núcleo de vilões ainda tem a cientista Dra. Meta Kozak (Anamaria Marinca) que do nada se revela uma sádica. O papel dela é tão absurdo e ruim, que na invasão final para resgatar os imortais que foram sequestrados, alguém dá um empurrão/golpe nela e a personagem desaparece do resto do filme. Simples assim. Acho que a Anamaria tava cansada de passar vergonha.
Além destes dois também temos Copley (Chiwetel Ejiofor de “12 anos de escravidão”) que faz a “ponte” entre os imortais e os vilões. Nem vou me aprofundar neste personagem, pois é outro que não se salva.


TL;DR – Já perdi tempo vendo o filme, acha que vou ler tudo?

The Old Guard tenta ser um drama de ação, porém o único drama real é o roteiro. As cenas de ação são boas, apesar de serem muito limpas e eu preferir cenas mais cruas, mesmo assim o trabalho da diretora foi muito bom, ainda mais se tratando de seu primeiro trabalho neste gênero de filme. Aliás, é a primeira vez que uma mulher negra dirige um filme de ação. Acho legal destacar que, para mim, o filme lida muito bem com diversidade e inclusão, fazendo isso de maneira natural, tão natural que eu só percebi quando vi uma entrevista da Gina falando sobre o tema.
Temos um mix de boas performances, com destaque para Charlize, Matthias e Kiki, com atuações patéticas como a de Harry e ruins como a de Anamaria.
O filme traz uma história cheia de potencial, com algumas boas ideias aqui e ali, mas com resultado final que não me agrada. Ao que tudo indica teremos uma continuação e quem sabe um filme melhor, que explore o passado dos personagens e se esforce em apresentar desafios de verdade.
Eu sinceramente não recomendo duas horas de investimento neste filme. Se quiser jogar esse tempo fora pode ver até Aeon Flux que será melhor.

Nota 1.5 de 5 bengalinhas

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